sexta-feira, 29 de maio de 2009

Artigos históricos

Capoeiragem: O Nosso Jogo!
Coelho Netto, O BAZAR "1922"

Transcrevendo-o do Correio do Povo, de Porto Alegre, publicou O Paiz em seu número de 22 do corrente, um artigo com o título: "Cultivemos o jogo de capoeira e tenhamos asco pelo do Box", firmado pelo correspondente do jornal gaúcho nesta cidade, Dr. Gomes Carmo. Concordamos in limini com o que diz o articulista, valho-me da oportunidade que me abre tal escrito para tornar a um assunto sobre o qual já me manifestei e que também já teve por ele a pena diamantina de Luiz Murat.
A capoeiragem devia ser ensinada em todos os colégios, quartéis e navios, não só porque é excelente ginástica, na qual se desenvolve, harmoniosamente, todo o corpo e ainda se apuram os sentidos, como também porque constitui um meio de defesa pessoal superior a todos quantos são preconizados pelo estrangeiro e que nós, por tal motivo apenas, não nos envergonhamos de praticar.
Todos os povos orgulham-se dos seus esportes nacionais, procurando, cada qual dar primazia ao que cultiva. O francês tem a savate, tem o inglês o boxe; o português desafia valentes com o sarilho do varapau; o espanhol maneja com orgulho a navalha catalã, também usada pelo "fadista" português; o japonês julga-se invencível com o seu jiu-jitsu e não falo de outros esportes clássicos em que se treinam, indistintamente, todos os povos, como a luta, o pugilato a mão livre, a funda e os jogos d`armas.
Nós, que possuímos os segredos de um dos exercícios mais ágeis e elegantes, vexamo-nos de o exibir e, o que mais é, deixamo-nos esmurraçar em ringues por machacazes balordos que, com uma quebra de corpo e um passe baixo, de um "ciscador" dos nossos, iriam mais longe das cordas do que foi Dempsey à repulsa do punho de Firpo.
O que matou a capoeiragem entre nós foi...a navalha. Essa arma, entretanto, sutil e covarde, raramente aparecia na mão de um chefe de malta, de um verdadeiro capoeira, que se teria por desonrado se, para derrotar um adversário, se houvesse de servir do ferro.
Os grandes condutores de malta guaymús e nagôs, orgulhavam-se dos seus golpes rápidos e decisivos e eram eles, na gíria do tempo: a cocada, que desmandibulava o camarada ou, quando atirada ao estomago, o deixava em síncope, estabelecido no meio da rua, de boca aberta e olhos em alvo; o grampeamento, lanço de mão aos olhos, com o indicador e o anular em forquilha, que fazia o mano ver estrelas; o cotovelo em ariete ao peito ou ao flanco; a joelhada; o rabo de raia, risco com que Cyriaco derrotou em dois tempos, deixando-o sem sentidos, ao famoso campeão japonês de jiu-jitsu; e eram as rasteiras, desde a de arranque, ou tesoura, até a baixa, ou bahiana; as caneladas, e os pontapés em que alguns eram tão ágeis que chegavam com o bico quadrado das botinas ao queixo do antagonista; e, ainda, as bolachas, desde o tapa-olho, que fulminava, até a de beiço arriba, que esborcinava a boca ao puaia. E os ademanes de engano, os refugos de corpo, as negaças, os saltos de banda, à maneira felina, toda uma ginástica em que o atleta parecia elástico, fugindo ao contrário como a evitá-lo para, a súbitas, cair-lhe em cima, desarmando-o fazendo-o mergulhar num "banho de fumaça".
Era tal a valentia desses homens que, se fechava o tempo, como então se dizia, e no tumulto alguém bradava um nome conhecido como:Boca-queimada, Manduca da Praia, Trinca-espinha ou Trindade, a debandada começava por parte da polícia e viam-se urbanos e permanentes valendo-se das pernas para não entregarem o chanfalho e os queixos aos famanazes que andavam com eles sempre de candeias às avessas. "Dessa geração celebérrima fizeram parte vultos eminentes na política, no professorado, no exército, na marinha como " Duque Estrada Teixeira, cabeça cutuba tanto na tribuna da oposição como no mastigante de algum paróla que se atrevesse a enfrentá-lo à beira da urna: capitão Ataliba Nogueira; os tenentes Lapa e Leite Ribeiro, dois barras; Antonico Sampaio, então aspirante da marinha e por que não citar também Juca Paranhos, que engrandeceu o título de Rio Branco na grande obra patriótica realizada no Itamaraty, que, na mocidade, foi bonzão e disso se orgulhava nas palestras íntimas em que era tão pitoresco.
A tais heróis sucederam outros: Augusto Mello, o cabeça de ferro; Zé Caetano, Braga Doutor, Caixeirinho, Ali Babá e, sobre todos o mais valente, Plácido de Abreu, poeta comediógrafo e jornalista, amigo de Lopes Trovão, companheiro de Pardal Mallet e Bilac no O COMBATE, que morreu, com heroicidade de amouco, fuzilado no túnel de Copacabana, e só não dispersou a treda escolta, apesar de enfraquecido, como se achava , com os longos tratos na prisão, porque recebeu a descarga pelas costas quando caminhava na treva, fiado na palavra de um oficial de nome romano.
Caindo de encontro às arestas da parede áspera ainda soergue-se, rilhando os dentes, para despedir-se com uma vilta dos que o haviam covardemente atraiçoado. Eram assim os capoeiras de então.Como os leões são sempre acompanhados de chacais, nas maltas de tais valentes imiscuíam-se assassinos cujo prazer sanguinário consistia em experimentar sardinhas em barrigas do próximo, deventrando-as.O capoeira digno não usava navalha: timbrava em mostrar as mãos limpas quando saia de um turumbamba.
Generoso, se trambolhava o adversário, esperava que ele se levantasse para continuar a luta porque: "Não batia em homem deitado"; outros diziam com mais desprezo: "em defunto".
Nos terríveis recontros de guaiamus e nagôs, se os chefes decidiam que uma questão fosse resolvida em combate singular, enquanto os dois representantes da cores vermelha e branca se batiam as duas maltas conservam-se à distância e, fosse qual fosse o resultado do duelo, de ambos os lados rompiam aclamações ao triunfador.
Dado, porém, que, em tais momentos, estrilassem apitos e surgissem policiais, as duas maltas confraternizavam solidárias na defesa da classe e era uma vez a Força Pública, que deixava em campo, além do prestigio, bonés em banda e chanfalhos à ufa.O capoeira que se prezava tinha oficio ou emprego, vestia com apuro e. se defendia uma causa, como aconteceu com do abolicionismo, não o fazia como mercenário.
O capanga, em geral, era um perrengue, nem carrapeta, ao menos, porque os carrapetas, que formavam a linha avançada, com função de escoteiros, eram rapazolas de coragem e destreza provadas e sempre da confiança dos chefes.
Nos morros do Vintém e do Néco reuniam-se, às vezes, conselhos nos quais eram severamente julgados crimes e culpas imputados a algum dos das farandulas. Ladrões confessos eram logo excluídos e assassinos que não justificassem com a legitima defesa o crime de que fossem denunciados eram expulsos e às vezes, até, entregues a policias pelos seus próprios chefes.Havia disciplina em tais pandilhas.
Quanto às provas de superioridade da capoeiragem sobre os demais esportes de agilidade e força são tantas que seria prolixa a enumeração.Além dos feitos dos contemporâneos de Boca queimada e Manduca da Praia, heróis do período áureo do nosso desestimado esporte, citarei, entre outros, a derrota de famosos jogador de pau, guapo rapagão minhoto, que Augusto Mello duas vezes atirou de catrambias no pomar da sua chacarinha em Vila Isabel onde, depois da luta e dos abraços de cordialidade, foi servida vasta feijoada. Outro: a tunda infligida um grupo de marinheiros franceses de uma corveta Pallas, por Zé Caetano e dois cabras destorcidos. A maruja não esteve com muita delonga e, vendo que a coisa não lhe cheirava bem em terra, atirou-se ao mar salvando-se, a nado, da agilidade dos três turunas, que a não deixavam tomar pé.
A última demonstração da superioridade da capoeiragem sobre um dos mais celebrados jogos de destreza deu-nos o negro Cyriaco no antigo Pavilhão Paschoal Segreto fazendo afocinhar, com toda a sua ciência, o jactancioso japonês, campeão do jiu-jitsu.
Em 1910, Germano Haslocjer, Luiz Murat e quem escreve estas linhas pensaram em mandar um projeto a Mesa da Câmara dos Deputados tornando obrigatório o ensino da capoeiragem nos institutos oficias e nos quartéis. Desistiram, porém, da idéia porque houve quem a achasse ridícula, simplesmente, por tal jogo era...brasileiro.
Viesse-nos ele com rótulo estrangeiro e tê-lo-íamos aqui, impando importância em todos os clubes esportivos, ensinado por mestres de fama mundial que, talvez, não valessem um dos nossos pés rapados de outrora que, em dois tempos, mandariam um Firpo ou um Dempsey ver vovó, com alguns dentes a menos algumas bossas de mais.
Enfim...Vamos aprender a dar murros " é esporte elegante, porque a gente o pratica de luvas, rende dólares e chama-se Box, nome inglês. Capoeira é coisa de galinha, que o digam os que dele saem com galos empoleirados no alto da sinagoga.
É pena que não haja um brasileiro patriota que leva a capoeiragem a Paris, batizando-a, com outro nome, nas águas do Sena, como fez o Duque com o Maxixe.Estou certo de que, se o nosso patriotismo lograsse tal vitória até as senhoras haviam de querer fazer letras, E que linda seriam as escritas! Mas, se tal acontecesse, sei lá ! muitas cabeçadas dariam os homens ao verem o jogo gracioso das mulheres".
(Crônica publicada em 1922 em 'O Bazar')

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Três Lagoas participa do 1º Brasileirão de Capoeira



Nos dias 1, 2 e 3 de maio de 2009 ocorreu na cidade de Selvíria-MS work shop e Campeonato Brasileiro de Capoeira, realizado pela Associação Desportiva Grupo Memória. Durante o evento, realizaram-se cursos com professores e mestres de todo país. No terceiro dia de evento foi realizado o campeonato brasileiro, no qual Três Lagoas participou com oito atletas divididos entre as três categorias (alunos, instrutores e professores), conseguindo premiação em todas. O destaque da competição foram as mulheres três-lagoenses, que competindo em categorias mistas conseguiram primeira colocação na categoria professores, com a participação da Profª Juliana Araújo, que também foi premiada com o troféu "Destaque da Roda", segundo lugar na categoria instrutores, onde participou a Instrutora Fernanda Aranha (Cigarra) e alunos na qual se consagrou campeã a aluna da professora Juliana, Lorraine (Pequena), vice-campeã Angélica Gadêlha (Boneca) e terceira colocada Micaelle Sobral (Bé), ambas alunas da Instrutora Fernanda. Também participaram da competição os atletas três-lagoenses Joyce Carvalho (Pata), Jesus e Arisvaldo (Val).










quinta-feira, 23 de abril de 2009

LENDAS DA CAPOEIRA – O Besouro

Manuel Henrique Pereira (1895-1924)

“Besouro Mangangá era homem de corpo fechado
Bala não matava, navalha não lhe feria...” (M. Fanho)


Diz a lenda que Besouro Mangangá, o Cordão de Ouro, tinha o corpo fechado e sabia voar. Tinha fama de valente e protetor dos mais fracos, foi exímio capoeirista e ganhou fama enfrentando batalhões, aqueles que o conheceram diziam que era um negro forte e bem apessoado conhecido em toda a região de Santo Amaro, Bahia, onde nasceu.
Sua morte é envolta por mistério, mas há testemunhas vivas (entre elas Dona Cano, mãe de Bethânia e Caetano Veloso) que afirmam terem visto Besouro ser levado esfaqueado ao hospital local.
A mais famosa versão da morte do Cordão de Ouro diz que Dr. Zeca, um fazendeiro para o qual Besouro trabalhava, inconformado por seu filho Memeu ter apanhado do capoeirista ao tentar negar-lhe o pagamento, mandou que o funcionário fosse até a fazenda Maracangalha entregar um bilhete.
Besouro era analfabeto e não pode ver que a mensagem entregue mandava que matassem o portador, e assim, quando voltou, no dia seguinte, foi surpreendido por 40 homens com os quais lutou. Porém, Eusébio de Quibaca sabendo do corpo fechado do rival desferiu-lhe pelas costas uma facada de Tucum. Assim, pela traição o corpo de Besouro foi aberto e este faleceu em 08 de julho de 1924.
Seja como for, o lendário Capoeira é cantado por toda parte e sempre será lembrado por sua valentia. Foi tema do livro “Feijoada no Paraíso: a saga de Besouro Mangangá” de Marco Carvalho e de diversas músicas de Capoeira.
Desde setembro de 2008 os capoeiristas aguardam ansiosos pela estréia do longametragem de João Daniel Tikhomiroff – Besouro, o filme, que promete fazer desta lenda uma história ainda mais fantástica.


Para saber mais sobre o filme acesse o Blog oficial.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Uma roda de amigos



Em 11 de abril de 2009 a festa foi na cidade de Nova Andradina-MS onde os amigos do Grupo Memória se reunirão pra comemorar a inauguração da academia de Capoeira do Prof. Lau.
Parabéns Lau!

sábado, 4 de abril de 2009

Capoeira e o Desenvolvimento Afetivo-social


A expressão afetiva de uma criança, antes da linguagem, é o gestor motor. A afetividade é o território dos sentimentos, paixões, emoções, por onde transitam medo, sofrimento, interesse e a alegria. O desenvolvimento afetivo-social envolve, basicamente todas as emoções da criança, é agindo e reagindo em interação com os grupos sociais que a criança desenvolve sua afetividade.

A capoeira se manifesta dentro de uma tradição de roda, e se desenvolve dentro de um verdadeiro cerimonial. O capoeirista aprende a respeitar e manter tradições. Ao defender as tradições, a lutar contra a discriminação que envolve a capoeira, afloram no capoeira sentimentos de amor, zelo, valorização e responsabilidade.

A responsabilidade, liderança, cooperação e participação são incentivadas, quando são incumbidas algumas funções ao capoeirista, dentro da academia como exemplo. Na capoeira é comum um capoeirista precisar de outro. Durante os treinos e jogos, todos são importantes: os jogadores, os tocadores, os cantores e os batedores de palmas. No decorrer da roda, o rodízio é constante nestas funções, valorizando igualmente todos, se, distinção de raça, nível social, aspecto financeiro, intelectual ou religioso, quebrando assim, varias barreiras para um melhor relacionamento.

As apresentações de capoeira desenvolvem no capoeirista a auto-estima, auto-imagem e auto-realização ele se sente importante, valorizado, prestigiado não só pelo mestre e seus companheiros, como também pelo público. A imagem que a criança tem de si, influi em todo o comportamento futuro. A formação de uma auto-imagem positiva é importante para que a criança se relacione bem consigo mesma e com os outros. A formação de uma auto-imagem negativa interfere no relacionamento da criança com os grupos com os quais terá que conviver.

A auto-estima é alcançada quando o capoeirista adquire segurança e coragem superando vários bloqueios anteriores como: medo e o complexo de inferioridade. A valorização e o incentivo ao companheiro que se destaca, é um ato de humildade e uma demonstração de afetividade muito importante entre os capoeiristas.

A capoeira é recomendada às pessoas com dificuldade de relacionamento, problemas na fala e também como terapia de controle de stress.

O jogo da capoeira traz ensinamentos importantes para o dia-a-dia dos seus praticantes, como: autonomia, confiança e respeito.

Autonomia - o capoeirista é responsável pelo seu ataque e defesa, pela sua integridade física e do companheiro, e puxar um jogo mais agressivo é responsável por suas conseqüências, não tem pais para ajudar.

Confiança - os movimentos devem ser executados sempre com segurança, o capoeirista deve confiar somente nos seus conhecimentos e habilidades.

Respeito - o respeito às regras, aos companheiros a ao mestre é fundamental.

O capoeirista conhecendo a história da capoeira e vivenciando suas tradições, passa a ter a responsabilidade de lutar e preservar sua cultura, dando continuidade à libertação que começou nas senzalas e continua ainda hoje, não só através do negro, mas todas as pessoas que se sentem oprimidas, exploradas, e que recebem a imposição de culturas importadas.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Crescendo com a Capoeira


A Capoeira

Quando você escuta o som do berimbau pela primeira vez é como se fosse lançado em um mundo novo, cheio de desafios... é nascer novamente. Aprender os passos da ginga e se perceber jogando é fascinante. Depois da primeira roda a vida não faz mais sentido sem Capoeira, ela toma conta do seu ser e você se integra a ela, a arte vibra em cada célula do seu corpo, por isso os grandes mestres dizem que é a Capoeira quem nos escolhe, por que ela se torna sua vida.



Função social da arte


O Projeto Crescendo com a Capoeira é desenvolvido no Centro Comunitário do Bairro JK, na cidade de Três Lagoas/MS e tem por objetivo principal utilizar a Capoeira como ferramenta apta a auxiliar as crianças e adolescentes na formação de personalidades pautadas em valores como cidadania, respeito e dignidade.

Cultura, esporte, lazer e trabalho em grupo, são as formas mais eficientes na formação do caráter humano, assim, a Capoeira se torna instrumento extremamente eficiente na mudança social. Incentivar a prática da Capoeira é respeitar e valorizar a cultura brasileira, mas muito mais que isso é acreditar no valor humano, criando novas perspectivas e contribuindo para formação de uma sociedade melhor.